“O ECO DO VÁCUO” — Conto Narrado por Grifter

Lorville.
Esse lugar sempre cheira a duas coisas: medo… e gente tentando esconder o medo.

Desci pelas vielas enferrujadas do submundo com o marcador piscando no meu mobiglass. O contrato era simples: recuperar o reagente roubado de um laboratório de MicroTech e entregar vivo… ou não tão vivo… o sujeito que o havia levado.

Sigo as coordenadas até o bar The Dragged Mule. Uma zona de armistício.
Lugar perfeito para quem acha que está seguro.

Entro. A névoa amarelada cobre tudo como poeira tóxica. Música baixa, conversas sussurradas, olhares que evitam contato — todos sabem quando um problema maior que eles acaba de entrar pela porta. Eu caminho até o balcão com aquela calma que irrita.

Duas Solaris Red.
O barman nem pergunta nada. Só obedece.

Pego os copos e caminho até a mesa onde o alvo está tentando parecer relaxado. Ele me vê chegando… e congela. Senta-se ereto. Quase derruba a cadeira.

Coloco dois copos diante dele e digo:

Você tá bebendo errado. O gole fica mais leve quando a consciência pesa.

Ele força um sorriso.
— G-Grifter… deve ter algum engano…

Eu rio.
— Se tivesse engano, maioral, eu não estaria aqui. Eu não erro esse tipo de coisa. Sinto o cheiro de culpa a três quarteirões.

Sento-me devagar. Ele engole seco.

— Não posso te entregar nada — diz ele, tentando soar firme. — Tô protegido aqui dentro. Zona de armistício. Você não vai arriscar quebrar as regras.

Eu? — encosto pra trás, relaxado. — Eu não quebro regras, parceiro. Eu as interpreto.
E a interpretação do dia é: você já passou do prazo de validade.

Ele tenta manter a postura, mas o suor entrega o pânico.

— Não vai adiantar tentar me intimidar, Bandoleiro…

Eu aproximo o rosto, baixo o tom e deixo a voz arranhar as palavras:

Intimidar? Não, não… tô só lembrando um detalhe: tem destino pior que a morte.

Os olhos dele arregalam. Ele tenta desviar o olhar, mas eu sigo:

— Quer saber por quê eu sou bom no que faço?

Ele não responde. Então eu conto — não pra ele, mas pra mim. Às vezes, relembrar os ecos me mantém alinhado.

Flashback – A rota esquecida

— Eu era soldado da UEE — começo, olhando para o vazio.
Uma nave de transporte de prisioneiros… gente ruim, congelada em cápsulas criogênicas.
A tripulação era boa… gente simples, correta… e com medo de mim. Talvez com razão.

— No meio da rota, piratas interceptaram. Queriam resgatar um dos presos.
Comandante me perguntou se dava pra segurar. Eu disse:
“Dá sim… mas vocês vão se esconder.”

Eles acharam loucura. Eu forcei.
E eles aprenderam que quando eu digo “confia”, é pra confiar.

Desci a pressão interna. Deixei os piratas abrirem a comporta por conta própria. Quando entraram, acharam que tinham vencido.

Dez homens.
— Armas pesadas.
— Rindo.

Eles não viram quando eu travei as portas atrás deles.

E um por um…
no escuro…
eu fui apagando as luzes da esperança daqueles sujeitos.
Alguns sem som, outros… deixaram a nave mais vermelha do que deveria.

Criei métodos. Criativos. Sombrios.
Coisas que nem eu gosto de lembrar.

Depois, joguei os corpos no espaço… lentamente… um por um, pra que ficassem flutuando como um aviso para qualquer idiota que algum dia tivesse a mesma ideia:

Se o Bandoleiro estiver a bordo…
não existe resgate.

Voltei à ponte.
Tripulação saiu dos esconderijos.
Seguimos viagem.
Sem relatório.
Sem alarde.
Sem glória.

Só uma dezena de corpos dançando no vácuo, girando eternamente pelo nada, carregando minha assinatura silenciosa.

Volto a olhar para o alvo. Ele está pálido. Tremendo. A mão dele mal segura o copo.

— Você entende agora? — pergunto. — Morrer… seria leve demais pra você.
Mas viver devendo pra MicroTech?
Isso sim… é punição.

Ele não aguenta a pressão.
A mão mergulha no bolso. Ele coloca na mesa um cilindro metálico, selado. O reagente.

— P-pelo amor de Deus… pega isso e vai embora…

Eu empurro um copo pra ele.

Troca justa.

Ele entrega o cilindro, pega a bebida com mãos trêmulas.
Eu levanto e ajeito a jaqueta.

Ótima escolha, maioral.

Saio do bar com passos leves. O corredor metálico de Lorville exala poeira e neon quebrado.

Do lado de fora, encostados na mureta, estão NoLaser e King.

King cruza os braços, músculos estourando a jaqueta.
NoLaser mastiga alguma coisa que parece… bom, nem quero saber.

— E aí, Grifter? — pergunta NoLaser. — Resolveu?

Eu levanto o cilindro, girando entre os dedos.

— Resolveu — digo.

King sorri. — O cara entregou rapidinho, né?

Eu coloco os óculos escuros.

Quando você mostra pras pessoas o peso do vácuo… elas aprendem a cair antes de serem empurradas.

E seguimos os três, sumindo no labirinto dourado de Lorville.

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